domingo, 22 de junho de 2008

A greve justa, a mídia parcial e a sociedade hipócrita


Colegas imprimam e deixe na sala dos professores.
A greve justa, a mídia parcial e a sociedade hipócrita

por Sylvio Micelli (*)

Na última semana, os professores de São Paulo iniciaram uma greve. O mote é o de sempre: melhores salários, condições dignas de trabalho e a luta contra os governantes de plantão que, aqui ou alhures e independente de filiação partidária, insistem em suprimir os parcos direitos que o funcionalismo ainda tem.

Por sinal, em 2008, esta não é a primeira classe que entra em greve. Já tivemos policiais, auditores fiscais e outras tantas categorias de servidores que, em que pesem ser díspares entre si, nas funções e nos salários, padecem dos mesmos problemas. E o quê servidores públicos queremos? O de sempre. Melhores salários, condições dignas de trabalho para que a sociedade receba um serviço público de qualidade. Isso nem sempre acontece, não por culpa dos servidores, mas por inoperância do próprio Estado-patrão que não dá as mínimas condições de trabalho.

O Ministro da Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels, dizia que "uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade". Talvez usar um nazista como exemplo não seja a alternativa mais viável, mas é assim que a mídia se comporta em qualquer manifestação que o funcionalismo público faz. Óbvio que há muito, deixei de acreditar em Papai Noel e sei que uma Imprensa isenta é totalmente utópico. A mídia, geralmente, se comporta de maneira oficialista. É muito mais fácil e dá menos trabalho abrir aspas para o Estado e reproduzir informações que trazem apenas uma versão, geralmente, equivocada do fato.

Voltando à greve dos professores, o jornal Folha de São Paulo estampou foto de capa em sua edição de 21/06/2008. A legenda não deixa dúvidas sobre qual lado o jornal está: "Ônibus parados na rua da Consolação devido a novo protesto de professores da rede estadual de SP". Ouvi, também nessa semana, um repórter da Rádio Bandeirantes tecendo críticas à greve por conta de "atrapalhar toda a cidade" com atos e paralisações.

Mas o jornal foi além. Na manchete do caderno Cotidiano lemos: "Professores mantêm greve e voltam a parar a Paulista". A matéria da jornalista Cinthia Rodrigues até tenta a lição do bom jornalismo, do ouvir o outro lado, mas mantém uma série de vícios. O lide da matéria, parágrafo que introduz o leitor ao texto, destaca a paralisação dos professores e a interdição de vias, dando claríssimos sinais de ser uma crítica que em rasos momentos vai ao foco do problema. Em seguida, o material prossegue informando sobre as reivindicações. Num dos intertítulos lê-se "Carnaval" numa referência às cores do ato e aos tambores que mantém o rítmo do movimento, como se fazer greve fosse uma festa. A jornalista encerra a matéria reproduzindo críticas de motoqueiros, transeuntes e pessoas presas no trânsito, como se estas fossem as donas da verdade.

Pergunto a mim mesmo. Por que podem usar a Paulista para movimentos de gênero sexual, comemoração de títulos de futebol e corridas? Isso não atrapalha o trânsito de ambulâncias? O que é uma afirmação esdrúxula. Qualquer caso grave de saúde se resolve com helicópteros. Por que livres manifestações democráticas não podem? Muitos podem até responder que o direito do servidor se encerra no direito do outro. Sim. Mas a manifestação é em prol de toda a sociedade e não traz este vício corporativo do qual sempre somos acusados.

Pois bem. Eu desenvolvi um certo know-how em relação a greves. Participei, ativamente, das duas do Judiciário, as maiores do funcionalismo paulista, nos anos de 2001 e 2004, que somadas chegaram a 172 dias. Pela minha função, cansei de atender a jornalistas que já vinham com a idéia pronta, com o prato-feito sobre aquilo que pretendiam escrever ou o que seus editores quisessem que escrevessem. As pautas chegavam a mim, viciadas. Sempre perguntavam se a paralisação não prejudica a população. E eu respondia que a paralisação era justamente a favor da sociedade. A lentidão do Judiciário e seu milhões de processos são provas indiscutíveis de que, aquilo que alertávamos há sete ou quatro anos, só piorou desde então. Enfim, o discurso da mídia é sempre o mesmo. Uma greve prejudica a população e traz uma série de prejuízos. Raríssimos são os jornalistas que refletem sobre as reivindicações e estabelecem um nexo causal entre a greve e a melhoria dos serviços públicos para todos.

A sociedade, de forma hipócrita, até entende, ou diz entender, o pleito. Normalmente, temos o direito de nos manifestar, mas fechar vias públicas não é legal porque atrapalham os próprios umbigos. Que façamos nossas manifestações em locais fechados, dizem! Esta mesma sociedade reproduz fielmente aquilo que a mídia lhes impõe e que foi perpretado pelos governantes. Que os servidores públicos são corporativos, vagabundos, ineficazes e tantos outros adjetivos desqualificadores que não caberia neste espaço. A retórica de que somos marajás, e que rendeu ao país um presidente da República derrubado por corrupção, ainda permanece. Mas ninguém aprendeu: nem mídia, nem sociedade. Curioso é notar que, basta abrir um concurso público, que a relação de candidatos / vaga chega a ser maior que a mesma verificada nos grandes vestibulares do país.

É bom entender, e que isso fique bem claro, que está mesma mídia escreve para a classe média que, geralmente, pouco se utiliza do serviço público. Isto porque se trata de uma sociedade passiva, para se dizer o mínimo. Ela prefere pagar por educação, saúde e segurança particulares, ao invés de cerrar fileiras na luta pelo serviço público que ela também paga, mediante impostos. O serviço público fica então relegado às camadas menos aquinhoadas da população. Para a turma da classe D/E, a sociedade que fica presa no trânsito, já virou as costas há muito tempo. Provavelmente eles pensam mais ou menos assim. 'Vamos deixar escolas sem qualidade, postos sem saúde', afinal de contas eles não precisam. E tudo isso para manutenção da próprio status quo da sociedade do ar condicionado dos prédios da Paulista ou da Berrini.

Vejo hoje que os servidores públicos, somos a última bandeira de reivindicação de toda a sociedade. Quem quiser se contentar com um salário mínimo de pouco mais de 400 reais, que se cale. Quem achar que escolas e saúde são apenas para os que lêem a mídia parcial, que se cale. Quem não souber ou não quiser saber que muitos servidores usam de recursos próprios para prestar serviço à sociedade, que se cale.

Nós, na condição de agentes de estado, não devemos, nem podemos nos calar. Mesmo que seja contra tudo e contra todos.

(*) O autor, 37, é diretor de Imprensa da Federação das Entidades de Servidores Públicos do Estado de São Paulo (Fespesp), entre outras entidades

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